terça-feira, 9 de novembro de 2010

Silêncio Confortável

Há muito tempo percebi, sendo eu péssimo em puxar assunto, que quando estamos na presença de alguém que não conhecemos bem ou queremos conquistar algum afeto (seja ele amizade, ou mais que isso), nos obrigamos a estabelecer uma conversa o mais ininterruptamente possível. Vomitamos assuntos atrás de assuntos, na esperança de que um deles se prolongue o suficiente e de alguma forma, mostre para a outra pessoa como somos legais e inteligentes. Percebi também que, em contrapartida, quando estamos com alguém que gostamos ou conhecemos bem, tanto a conversa flui de maneira natural quanto os momentos de silêncio (que marcam o fim de um tópico e duram até o surgimento do próximo) são encarados de maneira trivial, sem pressão nem desconforto.

Essa percepção sempre me foi tão banal, tão conhecida que demorei muito pra transfigurá-la em tweet. Antes disso compartilhei-a diversas vezes, com diversas pessoas. Cada vez que a relatava a alguém pensava em fazer dela um tweet, mas sempre acabava esquecendo. Quando enfim lembrei ela tomou a seguinte forma:

Sentir-se confortável perante os momentos de silêncio que, ocasionalmente ocorrem entre duas pessoas, é a prova de que é grande a afinidade e o sentimento que existe entre elas.

Quando colocamos "na ponta do lápis" algum pensamento, o mesmo se torna a nossos olhos bem mais nítido e formal. Nos sentimos satisfeitos com o fato de termos perpetuado uma ideia. Foi aí que (como diria a música Nem Parece, do Mombojó) o "acontecido aconteceu".

Mia Wallace (Uma Thurman)

Há algumas semanas, um amigo me passou o filme Pulp Fiction para eu assistir. Deixei para assistir, como sempre faço, no domingo a noite. Então, em uma cena protagonizada por John Travolta e Uma Thurman, a personagem diz (vide imagem), ante o silêncio momentâneo, que quando ficamos confortáveis perante o silêncio com alguém estranho, significa que a pessoa que esta diante de nós é especial e que entre elas há cumplicidade.
No mesmo instante bradei: "Putz, quase igual aquilo que eu vivo dizendo". A principio não gostei muito, pois seria possível que as pessoas pensassem (ao ler meu tweet ou me ouvir dizer) que eu tirei minha ideia do filme. Mas depois, não mais me importei e quando penso no assunto é apenas com curiosidade, devido ao fato de ideias semelhantes surgirem de maneiras diferentes, através de pessoas diferentes.

3 comentários:

B. disse...

Muito bom.
Ficou simples e bem objetivo.
E devo acrescentar: se tem uma coisa que eu não gosto nos blogueiros atuais é o fato de quererem mostrar as palavras novas que aprenderam com o dicionário, a leitura fica tão cansativa! - e olha que eu adoro as palavras! -
E vou dizer ainda mais: um texto sempre será mais bem vindo do que um simples tweet, pois 140 caracteres não são para mentes como a sua, -olha o ego subindo- não se deve limitar um escrito como este teu como o twitter limita
- não falando mal do programa, porque até se for bem usado, é um ótimo meio de expor os pensamentos-mas nunca me esqueço do que um amigo me disse certa vez:

- a necessidade não é ser grande, é ser bom.

pra mim bastou.

Parabéns Fer, estou no aguardo por atualizações!

O Warehouser disse...

Obrigado B! Espero que continue gostando.

Lua Nua disse...

Observei um detalhe: você escreveu seu texto sobre o silêncio em 9/11 e escrevi o meu em 9/12. E o que isso quer dizer? Nada! Só achei interessante.

Mas vamos falar do silêncio:
Existe sim esse silêncio harmônico, cheio de cumplicidade, povoado de carinho. O silêncio gostoso quando 2 pessoas se olham e tudo foi dito, pois a comunicação se faz de forma automática. Eu já vivi e sei que existe.

Mas também existe o outro silêncio, depois de uma conversa séria, que pede decisões e posicionamentos, aonde nada é feito. Nenhuma responsabilidade assumida, nenhum passo dado, nenhuma ajuda. Um silêncio ruim aonde uma das partes se esconde, achando que não falar, não se posicionar faz com que o mal estar desapareça, não vendo que, por vezes, é justamente o que faz o ele crescer.

Botar o lixo em baixo do tapete não faz com que ele deixe de existir, apenas trocamos ele de lugar.

Mas adorei seu pitaco! Pois as coisas não têm apenas uma faceta e quando alguém discorda é porque existe um outro caminho viável. Vc tem razão, acho que tenho sido bem dura mesmo. Talvez porque ultimamente tenho convivido com o silêncio mais do que gostaria.

Delícia de blog e deliciosa sua forma de escrever, parabéns! Você convidou, entrei e agora vou pegar um café, sentar e saborear o que escreveu.

Volte sempre no Lua Nua e deixe sua opinião, ela é importante.

Beijos